Maggie Gyllenhaal, que preside o jùri do Festival de Veneza de 2026, experimentou uma IA licenciada para transformar o rosto de Dakota Johnson no de Marilyn Monroe no curta de 17 minutos 'Flesh Impact'. Ela afirmou que o experimento “fundamentamente não funcionou” e que a performance de Johnson era muito mais comovente e humana do que a versão gerada por IA.
Por que a IA foi testada e depois descartada
Gyllenhaal contou, em uma conversa sobre inteligência artificial em Veneza, que as pessoas que comissionaram o projeto a pressionaram para usar IA. Ela recabou: treinaram o algoritmo com filmes de Marilyn Monroe dos quais tinham os direitos, e tentaram sobrepor o rosto de Monroe ao de Dakota Johnson. “Eles nem usavam OpenAI. Era IA licenciada, treinada com filmes de Marilyn Monroe que havéssemos licenciado. E eu me lancei. Pensei: ‘está bem, tenho curiosidade, vamos ver’”, disse. O resultado? “Trabalhamos muito, mas no fim eu joguei fora. O que saía com Dakota interpretando Marilyn Monroe era muito mais comovente, humano, vivo.”
O curta 'Flesh Impact' apresenta uma Marilyn Monroe de 100 anos, com flashes para a versão dos anos 1930, also interpretada por Ellen Burstyn. Johnson vive o período dourado da lenda, enquanto Burstyn encarna a versão idosa. A ideia inicial era usar a tecnologia para reforçar a dualidade temporal. Mas a diretora disse que a IA apagou exatamente o que tornava o filme coerente: “Todas as razões pelas quais decidimos fazer esse projeto no começo foram, foram, foram, foram, anuladas na versão de IA”, afirmou.
O lado ambiental e o futuro da IA no cinema
Além do fracasso criativo, Gyllenhaal levantou questões ambientais. Em uma plateia que incluía o compositor Alexandre Desplat, os cineastas Lee Daniels e Shannon Murphy, e o produtor Lorenzo Mieli, ela disse que os data centers de IA consomem energia em escala preocupante. “Na América, tem um debate enorme em South Memphis sobre isso. É um problema, e precisamos reconhecer.”

Ela também citou Geoffrey Hinton, considerado o “pai da IA”, como alguém que já alertou sobre os riscos. “Hinton sugeriu que deveríamos programar IA com um instinto maternal”, afirmou, sem aprofundar o comentário.
Sobre os custos, Gyllenhaal disse que já ouviu dizer que um filme que hoje custa US$ 40 milhões poderia cair para US$ 4 milhões — e talvez até US$ 400 mil — com o uso de IA. Mas, como observou, isso vem das próprias empresas que controlam a tecnologia. “Eles falam em democratizar, mas o discurso vem deles mesmos.”
Ela também mencionou que empresas de IA estão tentando licenciar imagens de atores para reproduzi-las por meio de software, sem que os artistas tenham controle sobre o uso de seus rostos e performances digitais.


