Espanha disputa gigafábrica de IA europeia com € 5 bilhões
A Espanha apresenta a partir de setembro a candidatura para hospedar uma das sete gigafábricas de IA que a União Europeia vai financiar. O projeto mobiliza cerca de € 5 bilhões, já tem € 719 milhões autorizados pelo governo de Pedro Sánchez e reúne num consórcio o Estado espanhol, o Banco Santander, a ACS, a Telefónica e a Multiverse Computing, com os sócios privados no controle por 51% do capital. O edital europeu fecha em 12 de novembro e a Comissão Europeia só decide no início de 2027.
A informação é do diário econômico espanhol Expansión, que cita fontes a par do processo. Até 2 de agosto de 2026, nenhum outro veículo do levantamento havia coberto a candidatura.
O que é uma gigafábrica de IA
Gigafábrica de IA, ou AI gigafactory no edital em inglês, é a instalação de computação de grande porte que a União Europeia vai financiar para treinar e rodar modelos de inteligência artificial em escala. A finalidade declarada é dar ao bloco capacidade própria de desenvolver modelos avançados e manter autonomia estratégica em pesquisa e em setores industriais críticos.
Bruxelas vai bancar até sete dessas unidades. A Espanha quer uma.
Quem paga e quem manda no consórcio
O controle é privado, por pouco. Santander, ACS e Telefónica ficam com 15,67% cada, o que dá 47% somados. A basca Multiverse Computing entra com 4% e leva o bloco privado a 51%. O governo espanhol fica com 47,99%, aportados pela Sociedad Española para la Transformación Tecnológica, a SETT, que os espanhóis chamam de "SEPI Digital". A Generalitat da Catalunha começa com 1%.
Foi por essa estrutura que o governo canalizou os € 719 milhões aprovados em julho.
A direção executiva ficou com Francesc Fajula, que deixou há pouco o comando da Fundació Mobile World Capital Barcelona. Ele foi o primeiro executivo contratado pelo consórcio.
A planta tem duas sedes: Móra la Nova, na Catalunha, e San Fernando de Henares, na região de Madri. A apuração não diz como a capacidade se reparte entre as duas.
O que a Europa está comprando
A conta prevista pela Comissão Europeia para as sete unidades passa de € 30 bilhões: até € 10 bilhões de dinheiro europeu e nacional, puxando pelo menos € 20 bilhões privados.
O dinheiro passa pela EuroHPC, a empresa comum europeia de computação de alto desempenho, sediada em Luxemburgo. Ela e 18 Estados-membros, a Espanha entre eles, vão comprar em conjunto o acesso à capacidade de cálculo das gigafábricas escolhidas. O comprador do processamento já está contratado antes de a máquina existir.
Madri também pagou pela cadeira. O Conselho de Ministros autorizou em junho uma contribuição voluntária de € 300 milhões à EuroHPC, a título de serviços.
O calendário: candidaturas até 12 de novembro, adjudicação no início de 2027, obra das primeiras instalações começando no mesmo ano. Se a Comissão só manda construir em 2027, ninguém treina modelo nessas máquinas antes de 2028.
Energia barata é o argumento central da Espanha
A carta espanhola é infraestrutura, e o item mais forte é conta de luz. Pelos dados do Eurostat, a eletricidade custa menos na Espanha do que na Alemanha, no Reino Unido e na Itália. As renováveis passam de 60% da matriz elétrica do país. Para uma instalação que existe para treinar modelos, essas duas linhas são o custo operacional principal.
O resto do argumento:
- Fibra óptica em 95,97% da população, contra média europeia de 74,13%. Na zona rural, 88,7% contra 62,6%.
- 5G em 99,17% da população total e 95,69% da rural.
- Cabos submarinos ligando o país à América e à África, o que posiciona a Espanha como ponto de conexão do sul da Europa.
- Supercomputação pública pela Red Española de Supercomputación, com o MareNostrum 5 (quarto na rede europeia), as fábricas de IA do Barcelona Supercomputing Center e do CESGA galego, e o Alia como infraestrutura de modelos de linguagem.
- Regulação pronta: piloto de sandbox regulatório, guias de conformidade para empresas e agência de supervisão própria, dentro das estratégias nacionais de 2021 e 2024.
- Compra pública: terceiro país do mundo em contratos públicos de IA entre 2013 e 2024.
O que a apuração não responde
Três coisas ficam de fora do material apurado: quantos consórcios disputam as sete vagas, quais são os critérios oficiais de adjudicação e qual o desenho de hardware da planta espanhola. O Expansión escreveu sobre a candidatura espanhola, não sobre a concorrência.
O que muda para quem decide no Brasil
O argumento de venda da Espanha é uma lista que qualquer país vai repetir para disputar carga de treinamento: preço da energia, participação de renovável na matriz, cobertura de fibra, cabo submarino e volume de compra pública. Quem não consegue montar essa lista aluga computação de quem consegue.
Para quem compra capacidade agora, o efeito prático é de prazo. A oferta europeia subsidiada aparece depois de 2027, e 18 governos já reservaram o acesso a ela. Contrato de treinamento em escala assinado nos próximos dois anos continua preso à nuvem americana.
Fica também um preço de referência. A Europa está dispondo € 30 bilhões para parar de depender de infraestrutura de IA de terceiros. É o que um bloco econômico aceita pagar por autonomia de processamento, e é o número contra o qual medir qualquer proposta de soberania digital feita no Brasil.
--- Apurado em 1 veículo de 1 país.