Scania usa IA para estender a vida do motor a diesel
A Scania usou inteligência artificial no desenvolvimento de uma evolução do motor a diesel Super, que consome até 8% menos combustível que a plataforma anterior. A montadora apresentou o conjunto em agosto de 2026, na fábrica de São Bernardo do Campo, e não informou qual ferramenta de IA usou nem quanto do ganho veio do software. Um único veículo cobriu o evento, a Folha de S.Paulo.
O que a Scania mostrou em São Bernardo do Campo
A montadora exibiu a motorização Super evoluída instalada em um chassi de ônibus rodoviário, na fábrica do ABC paulista.
O número apresentado é consumo até 8% menor que o da plataforma mais antiga. Três mudanças físicas sustentam esse ganho, segundo a empresa:
- um sistema de injeção de combustível descrito como avançado
- injeção de óleo lubrificante por spray
- um cabeçote capaz de suportar pressões de combustão maiores
A Scania afirma que as peças novas não bastavam para produzir ganho perceptível na aplicação rodoviária, e que as ferramentas de IA entraram no desenvolvimento a partir daí, para trabalhar o gerenciamento dos recursos do veículo.
Onde entra a inteligência artificial no motor a diesel
Eronildo Barros, diretor-geral das operações comerciais da Scania no Brasil, deu a única descrição pública desse uso. Segundo ele, a tecnologia recuperou os sistemas eletrônicos que controlam as principais funções do motor, com o objetivo de reduzir o consumo de combustível.
Barros diz que a arquitetura eletrônica governa a lubrificação, os comandos mecânicos e a integração das engrenagens, e que ela sustenta o funcionamento do veículo.
Ele citou três sistemas como alvo desse gerenciamento:
- o mecanismo que recupera parte do diesel que ficaria no fundo do tanque
- o duplo comando de válvulas, ou DOHC
- a injeção e nebulização de Arla 32, solução de ureia em água desmineralizada que
- reduz a emissão de óxidos de nitrogênio em veículos a diesel
O executivo também ligou a IA ao conceito de veículo definido por software, dizendo que a tecnologia acelera tanto o desenvolvimento de produtos novos quanto o aperfeiçoamento dos que já existem.
O que a Scania não informou sobre o uso de IA
A empresa não nomeou nenhuma ferramenta, modelo ou técnica. Não há menção a aprendizado de máquina, otimização de calibração, simulação ou qualquer categoria que permita separar o que é IA do que é eletrônica embarcada convencional. Motor a diesel pesado tem central eletrônica gerenciando injeção há décadas, e a descrição pública não distingue uma coisa da outra.
A Scania também não decompôs os 8%. Ela apresenta o ganho como resultado do conjunto, que inclui cabeçote, injeção e lubrificação novos. Nada no material permite dizer que fração do número veio do desenvolvimento assistido por IA.
O número é da própria fabricante, divulgado em evento dela. Nenhum teste independente, órgão certificador ou terceiro aparece no material. Quem falou foi o diretor de operações comerciais, e não a engenharia.
Faltam também data e preço. A empresa não disse quando a evolução do Super chega ao mercado brasileiro nem quanto custa.
Por que o motor a diesel voltou a receber investimento
A Scania lançou o motor Super na Europa em 2021, nas versões de 11 e 13 litros. Na ocasião, a companhia tratou a plataforma como sua última geração a diesel.
A leitura sobre a eletrificação de veículos pesados mudou desde então. A empresa aponta quatro travas no caminhão a bateria:
- capacidade de carga menor
- custo
- infraestrutura de recarga
- autonomia baixa
Com a substituição adiada, a Scania voltou a investir engenharia no motor a combustão.
A montadora aponta ainda a melhora do próprio combustível. O diesel de hoje é melhor que o de 2021, e Barros espera que os ganhos futuros em motor a combustão venham de combustível melhor, aproveitamento energético maior e mais controle eletrônico.
O cálculo regulatório por trás da escolha
Barros associou a estratégia ao custo de conformidade. Segundo ele, espremer mais eficiência do diesel permite atender regras futuras de emissão e consumo sem investimento alto.
Ele aponta a Europa como referência, onde já se trabalha com níveis mais rigorosos que os do Euro 6. A previsão do executivo é de convivência: eletrificação e combustão seguem juntas.
O material não traz regra brasileira, prazo regulatório ou número de emissão. A comparação com a Europa parte do executivo, que não citou nenhuma norma.
O que a Scania vende de elétrico no Brasil hoje
A reportagem descreve como tímida a oferta elétrica da marca no país. Desde 2024 a Scania vende o caminhão 30 G 4x2, com autonomia estimada em 250 quilômetros, e chassis de ônibus a bateria.
A montadora oferece também versões a gás natural, que aceitam biometano de origem renovável.
O que isso muda para quem opera frota no Brasil
Esse uso de IA não aparece nas manchetes de modelo e data center. A tecnologia serve para prolongar a vida útil de um ativo industrial já instalado, em vez de acelerar a troca dele.
A grandeza prática é o consumo: até 8% de diesel a menos por veículo, sem data de chegada ao mercado brasileiro e sem preço. Quem for negociar frota pode perguntar ao fornecedor quanto desses 8% se sustenta no ciclo real de operação e sob que condição de carga.
A Scania mudou a justificativa comercial. Em 2021 tratava o Super como sua última plataforma a diesel; agora vende a sobrevida dela. Se essa leitura pegar entre fabricantes de pesados, o cronograma de eletrificação de frota no Brasil se alonga, e quem planeja infraestrutura de recarga precisa refazer a conta.
Uma fonte só, e o que isso limita
Esta história foi apurada em um único veículo. A Folha de S.Paulo cobriu o evento e publicou as declarações do executivo em 3 de agosto de 2026. Nenhum outro veículo do levantamento tratou do assunto.
Fonte única de evento de fabricante não permite conferência cruzada. Os 8% e a atribuição do ganho à IA são posição da Scania registrada por um jornal. Nenhuma apuração independente confirmou os números.
--- Apurado em 1 veículo de 1 país.