Livreiros independentes no Reino Unido e em outros países estão vendo pedidos de livros usados dispararem, com grandes volumes enviados a armazéns distantes. A BBC apurou que a explicação mais provável é a compra por empresas de inteligência artificial para treinar seus sistemas, processo que frequentemente envolve a destruição dos exemplares.
Pedidos misteriosos e a pista da IA
Stuart Manley, dono da Barter Books em Northumberland (Reino Unido), recebeu um único pedido de uma empresa canadense equivalente ao que venderia em uma semana inteira. Em 30 anos no ramo, ele nunca viu algo parecido. Outros livreiros, como David Tobin, da Walden Books em Londres, também relatam encomendas incomuns de títulos que estavam encalhados há anos.
A BBC apurou que a explicação mais provável é a explosão do mercado de IA. Em 2025, um juiz dos EUA decidiu que usar livros comprados dessa forma para treinar software de IA não viola a lei de direitos autorais americana, por considerar o uso “extremamente transformativo”. A decisão ocorreu em uma ação movida por três autores contra a empresa Anthropic.
‘Project Panama’ e a digitalização destrutiva
Documentos judiciais revelados no mês passado mostraram que, internamente, a Anthropic chamava o projeto de ingerir livros antigos de “Project Panama”. O objetivo, segundo os documentos, era “digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo”. O processo envolve retirar a lombada dos livros para escanear páginas em escala industrial, e o restante é reciclado.

Embora a Anthropic negue que compre e destrua livros raros ou antigos, a prática causa desconforto entre livreiros. “Seria triste se esses livros fossem destruídos”, disse Tobin à BBC. A diversidade dos títulos – de textos em latim obscuros a romances de faroeste – também aponta para a IA, já que obras raras podem fornecer material novo para modelos de linguagem.
Diferenças legais e dilema ético
A professora Emily Hudson, especialista em propriedade intelectual da Universidade de Oxford, explicou à BBC que as leis do Reino Unido diferem das americanas. “No Reino Unido, todos esses atos de cópia – criar a biblioteca de treinamento e realizar o treinamento – exigem a permissão do detentor dos direitos autorais.”
Para os livreiros, a situação é um dilema: vendem títulos esquecidos, mas temem que o destino final seja a destruição. Ainda não se sabe ao certo se os livros de pequenos sebos estão alimentando diretamente o “Project Panama” ou projetos similares de outras empresas de IA.


