O New York Times acusou a Microsoft e a OpenAI de usar mais de 10 milhões de artigos jornalísticos — quase um terço deles do próprio jornal — para treinar modelos de inteligência artificial, segundo documento judicial divulgado em 18 de setembro. O processo afirma que um executivo da Microsoft descreveu o Episódio como 'um asombroso roubo de proporções sem precedentes' e possivelmente 'o maior roubo de trabalho na história da humanidade'. O NYT alega que as empresas sabiam que o uso não autorizado de conteúdo noticioso constituía furto contra direitos autorais.
Contexto e fundamentos da acusação
Segundo o Free Malaysia Today, o scraping realizado pela OpenAI alcançou mais de 10 milhões de artigos, dos quais cerca de 3,3 milhões pertenciam ao New York Times. O documento judicial citado pelo veículo malaio indica que Brent Hecht, diretor de Ciência Aplicada da Microsoft, teria alertado internamente sobre a gravidade do ato, qualificando-o como 'um asombroso roubo de proporções sem precedentes' e sugerindo que poderia tratar-se do maior furto de trabalho intelectual já registrado.
Breves retratos da cobertura estrangeira ilustram nuances distintas: enquanto o jornal argentino La Nación destaca que vários veículos de notícias se juntaram ao NYT na ação legal — citando Ziff Davis, que controla o CNET, o canal investigativo The Intercept e o magazine Mother Jones — o mexicano El Universal enfatiza a dimensão histórica das palavras de Hecht, reforçando o tom de escândalo envolvendo não apenas direitos autorais, mas também o impacto potencial sobre o tráfego de notícias em sites tradicionais.
Diario Libre, da República Dominicana, traz uma perspectiva complementar ao mencionar preocupações levantadas por engenheiros da própria OpenAI: mesmo após acordos de licenciamento assinados com diversos grandes editores — incluindo a Bloomberg e a Axel Springer — figuras próximas à empresa teriam considerado insuficientes as tentativas posteriores de citar fontes com hiperlinks nos resultados gerados pela IA.
Defesa das empresas e reações institucionais
Microsoft e OpenAI reconhecem ter utilizado conteúdo de terceiros, mas defendem que o treinamento de modelos de linguagem constitui uso transformador, enquadrado na exceção de fair use prevista em leis de direito autoral. Essa posição é reforçada pelo argumento de que a inovação em IA depende precisamente de algoritmos capazes de aprender com textos amplamente disponíveis, mesmo que não sejam de autoria da própria empresa.

Em meio a essa disputa, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou documento em apoio às empresas no início de setembro, invocando progresso científico, crescimento econômico e segurança nacional como justificativas para o uso dos dados. Para o órgão federal, restrições muito rígidas ao acesso a conteúdo textual poderiam dificultar avanços tecnológicos considerados estratégicos para o país.
A Microsoft já afirmou que as declarações atribuídas a Brent Hecht representam apenas opiniões pessoais de um funcionário e não refletem política corporativa oficial.
Indenização e perspectivas judiciais
O New York Times propõe indenização por cada um dos artigos supostamente utilizados sem autorização, ainda que não tenha divulgado o valor total das sanções buscadas. A estratégia inclui também pedido de sentença sumária — mecanismo que, se concedido pelo juiz Sidney Stein, encerraria o litígio sem necessidade de julgamento completo.
Mesmo com essa pressão judicial, especialistas apontam que decisões não são esperadas até 2027, indicando que o caso seguirá por mais tempo. Enquanto isso, outras publicações continuam observando o desdobramento, especialmente porque o desfecho pode definir precedentes globais sobre os limites do uso de conteúdo jornalístico no treinamento de IA.


