Investidores no mercado de títulos estão inquietos com cerca de US$ 70 bilhões em passivos fantasma que não constam nos balanços das maiores empresas de inteligência artificial, mas podem saltar ao colo delas numa crise, reportou a Bloomberg. A tensão aumenta após os anúncios desta semana sobre parcerias de financiamento bilionárias, lideradas pela Nvidia Corp., que está disposta a injetar dezenas de bilhões em garantias de "valor residual" para operações de dívida ligadas à expansão da IA. O objetivo é usar o selo de crédito forte da gigante dos chips para segurar os custos dos clientes.
Mecanismo de risco
O esquema opera por uma cadeia complexa: um veículo de propósito específico pega emprestado para adquirir os chips, lastreado pelo fluxo de caixa prometido por quem vai usá-los. Se o cliente calar, os ativos são revendidos ou reciclados como locação para quitação parcial. Qualquer buraco na conta fica por conta do garante. Na teoria, o cenário catastrófico é remoto — defensoores da estrutura argumentam que a demanda por processamento superará a oferta nos próximos anos e que a dívida se paga sozinha com o tempo.
Divergências contábeis
A Meta Platforms Inc. foi pioneira ao aplicar essa estrutura aos seus próprios data centers, classificando os pagamentos de garantia de valor residual (RVG) como "não prováveis" nos documentos oficiais, o que justificava a ausência de registro de passivo. Para alguns analistas, entretanto, esse rótulo perdeu força. A Broadcom Inc. adotou abordagem distinta ao financiar chips para a Anthropic PBC, vinculando diretamente sua exposição financeira aos destinos do cliente. As agências de rating mantêm alerta: nada impede que essas garantias sejam acionadas.

A engenharia financeira sob scrutiny
Wall Street já duvida que o ritmo frenético de gastos em infraestrutura traga retornos proporcionais. Numa recessão do setor, as garantias poderiam forçar fabricantes de semicondutores a honrar compromissos bilionários justamente quando seus lucros estivessem encolhendo. Mariya Entina, gestora de portfólio da DoubleLine, disse à Bloomberg que a prática assemelha-se a "manipular o sistema" para obter tratamento preferencial das agências de rating. "Estamos entrando nessa era de engenharia financeira. E essa é uma das minhas preocupações: quando você tem engenharia financeira, você obscurece a realidade financeira."
Com a expectativa de explosão da dívida para aquisição de hardware de IA, esses backstops fora do balanço tendem a crescer, inflamando o debate sobre transparência e perigos sistêmicos no crédito corporativo.


