Os Estados Unidos se preparam para pressionar dezenas de países a tomar partido na disputa global por inteligência artificial (IA), advertindo que a participação simultânea na coalizão americana e na iniciativa chinesa será considerada incompatível. A informação foi revelada pela agência Reuters, que teve acesso a um rascunho interno do Departamento de Estado e a um funcionário de Washington.
O documento, ainda não enviado e sujeito a alterações, é dirigido aos 35 signatários de uma “Declaração de Oportunidades em IA” firmada com os EUA em junho. Entre eles estão integrantes do chamado “Pax Silica”, uma coalizão lançada no ano passado para garantir cadeias de suprimento de modelos de IA, semicondutores e minerais críticos, além de outros países que manifestaram interesse em alinhar sua cooperação com Washington.
O gatilho: Cazaquistão aderiu aos dois blocos
De acordo com a Reuters, a pressão americana foi acelerada depois que o Cazaquistão tornou-se o primeiro país conhecido a aderir tanto ao Pax Silica quanto à Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, lançada pelo presidente chinês Xi Jinping em julho com 29 países. Para a Casa Branca, a participação dupla enfraquece a confiabilidade do bloco tecnológico e pode dar à China acesso a recursos estratégicos.
“Fazer parte de tudo é não fazer parte de nada. A assinatura da declaração do Pax Silica não é mera adesão, mas um compromisso”, diz a carta, que pede que as nações “escolham deliberadamente”. O texto não menciona a China nominalmente, mas deixa claro que a participação em “iniciativas duplicadas com expectativas conflitantes” não será tolerada.

Reação chinesa e contexto da rivalidade
No final de julho, o Ministério do Comércio da China acusou os EUA de hegemonismo na área de IA e ameaçou retaliação depois de novas ameaças de sanções contra empresas chinesas. A iniciativa chinesa promove tecnologia de código aberto como alternativa ao domínio americano, que se baseia em sistemas proprietários de empresas como OpenAI e Anthropic.
O movimento americano ocorre em um momento crítico da corrida tecnológica: modelos chineses de código aberto avançam rapidamente, e ambos os países disputam acesso a chips semicondutores, data centers e minerais essenciais. A Gazeta do Povo destaca que o Brasil, que vem ampliando a cooperação com Pequim em IA e minerais críticos, pode ser afetado pela pressão.
O que ainda não foi divulgado
- Data exata em que a carta será enviada — o rascunho não estava datado, e pode sofrer modificações antes do envio.
- Se haverá exceções para países estratégicos ou aliados tradicionais.
- A resposta oficial do Departamento de Estado, que se recusou a comentar “documentos internos supostamente vazados”.


