Cães treinados com inteligência artificial detectam câncer pelo hálito na Índia, segundo o O Globo e o Tilt (UOL). A startup Dognosis, com sede em Bangalore, equipou animais com coleiras e capacetes impressos em 3D que carregam sensores para monitorar reações a amostras de respiração de pacientes.
Como funciona o treinamento e a coleta de amostras
O paciente respira por cerca de dez minutos em uma máscara de algodão, que depois é lacrada em uma bolsa e levada ao laboratório. Lá, a amostra é exposta aos cães já treinados. Entre os animais, Chloe, uma cadela de quatro anos adotada recentemente, não corre pela fazenda perto de Bangalore durante as sessões — ela foca em identificar odores específicos ligados a câncer.
O grupo atualmente conta com 15 cães, majoritariamente beagles, além de malinois e mestiços de pastor, todos provenientes de adoções ou criadores autorizados. Cada um pode farejar até mil vezes por hora, segundo o Tilt (UOL), e manifestar a detecção de forma distinta: alguns correm direto para o dispensador de recompensas, outros ficam parados, e alguns arranham a plataforma com a amostra.
O treinamento utiliza reforço positivo. As amostras são colocadas em plataformas próximas a dispensadores automáticos de comida, que liberam recompensas sempre que o cão demonstra a reação esperada. As sessões diárias duram até 45 minutos.
Os capacetes e coleiras impressos em 3D vêm equipados com sensores que captam atividade cerebral, respiração e linguagem corporal dos animais. A inteligência artificial converte esses sinais em dados mensuráveis.
Resultados clínicos e críticas externas
Um estudo conduzido pela Dognosis reuniu mais de 1,5 mil participantes de seis hospitais no estado de Karnataka e foi publicado no Journal of Clinical Oncology. De acordo com a empresa, o sistema atingiu 90% de precisão na identificação de sete tipos de câncer.
Mas especialistas não envolvidos no projeto recomendam cautela. Santhosh Kumar Devadas, chefe de oncologia do Hospital Memorial Ramaiah, afirmou que o resultado é promissor, mas são necessários estudos com grupos maiores. Neelesh Reddy, consultor de oncologia dos hospitais Manipal, destacou que apenas o tempo dirá se a tecnologia será útil em casos reais.

A Dognosis vê a abordagem como uma etapa inicial simples e acessível antes de exames mais complexos. A empresa planeja lançar a tecnologia comercialmente em 2027 e já colabora com instituições médicas governamentais indianas para validar o método em escala maior.
Na Índia, muitos casos de câncer são diagnosticados em estágios avançados. Pesquisadores estimam que um em cada nove habitantes do país poderá desenvolver algum tipo da doença ao longo da vida.
Contexto e perspectiva internacional
Estudos globais indicam que cães podem ser treinados para detectar câncer, além de outras doenças como Parkinson e Covid-19. A iniciativa da Dognosis segue o exemplo de empresas semelhantes na Alemanha e em Israel, segundo o Tilt (UOL).
A proposta busca oferecer uma ferramenta de triagem barata e não invasiva, especialmente relevante em regiões com recursos limitados. Parcerias com hospitais públicos indianos pretendem ampliar a validação do método nos próximos anos.


