O chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Pablo Hernandez de Cos, afirmou que o rápido avanço da inteligência artificial está gerando novas ameaças à estabilidade financeira global. Em discurso na Índia, ele destacou que os investimentos em infraestrutura de IA já são tão grandes que começam a pressionar as condições econômicas mundiais. O crescimento recente nessa área, segundo ele, exige cuidado especial por como está sendo financiado.
Investimentos em dívida, não em lucros
O BIS projeta que as cinco maiores empresas de tecnologia do planeta destinem mais de US$ 1 trilhão a projetos de IA entre 2025 e 2026. Projeções do setor apontam para um salto: o investimento global pode passar de cerca de US$ 500 bilhões hoje para até US$ 4 trilhões em 2030. Mas o modelo de financiamento preocupa. Segundo Hernandez de Cos, o boom da IA depende cada vez mais de dívida e crédito privado do que de lucros corporativos. A estrutura desses investimentos permanece opaca e altamente interligada, o que dificulta qualquer análise clara por parte dos reguladores.
Produtividade sobe, mas o impacto é desigual
A IA também está redefinindo os padrões do comércio global. Na Índia, Coreia do Sul, Singapura, Malásia e Taiwan, a demanda por chips e equipamentos voltados à IA elevou os preços de exportação. Para Hernandez de Cos, a IA generativa pode elevar a produtividade em tarefas pontuais entre 10% e 65%, especialmente na programação, consultoria e escrita profissional. Ainda assim, o ganho para a economia como um todo deve rondar meio ponto percentual ao ano — um número promissor, mas distante do que muitos esperam. Países mais desenvolvidos tendem a liderar essa transição, embora Hernandez de Cos reconheça que a Índia pode fechar certa lacuna com apoio de sua infraestrutura digital pública.
Empregos em risco, mas ainda não em crise
No que diz respeito ao mercado de trabalho, ainda não há um número expressivo de demissões ligadas à IA, mas Hernandez de Cos já enxerga sinais de atrito em áreas como atendimento ao cliente, programação e tarefas administrativas. Isso torna a requalificação dos trabalhadores algo urgente. Ele também alertou para três fatores que podem transformar o otimismo em vulnerabilidade caso as expectativas não se confirmem: valorizações infladas, concentração de mercado e estruturas de financiamento opacas. "A escala e a velocidade desse novo ciclo de investimentos, aliados ao peso das expectativas comerciais, exigem certa moderação", afirmou, comparando o momento com bolhas anteriores como a era ferroviária e o auge do dotcom.


