A empresa de inteligência artificial Anthropic afirmou ter detectado e interrompido uma operação de influência ligada a autoridades dos Emirados Árabes Unidos (UAE) que usou seu chatbot Claude para gerar conteúdo contra críticos do papel do país na guerra do Sudão. Segundo relatório divulgado na quinta-feira, a campanha teve como alvo principal a Irmandade Muçulmana e especialistas da ONU que questionam a atuação de Abu Dhabi no conflito.
Campanha coordenada com alta confiança
De acordo com a Anthropic, a operação foi atribuída "com alta confiança" a funcionários do governo dos Emirados. Ela se concentrou em uma persona de IA chamada Deadshot, que seguia uma doutrina que pedia uma "operação transatlântica e regional coordenada para desmantelar a Irmandade Muçulmana globalmente". A campanha usou o Claude para gerar relatórios, materiais de advocacy, conteúdo para redes sociais e testemunhos sobre a guerra no Sudão, que desde abril de 2023 opõe o Exército sudanês e as paramilitares Forças de Apoio Rápido (RSF).
A Anthropic informou que a operação envolveu cerca de 300 contas falsas em redes sociais. O objetivo era criar a aparência de que materiais favoráveis a uma das partes no conflito chegavam à ONU como provenientes de testemunhas independentes locais, e não como mensagem estatal.
Alvo: críticos internacionais
Segundo o relatório, a operação compilou "dossiês de contra-responsabilização" sobre relatores especiais da ONU que criticaram a conduta dos Emirados no Sudão. Também envolveu a apropriação da identidade de uma organização sudanesa de direitos humanos legítima e a redação de testemunhos para dois indivíduos nomeados. A Anthropic afirmou que a campanha redigiu depoimentos oficiais destinados à 62ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, com a restrição de que nenhum dos discursos mencionasse os Emirados Árabes Unidos.

Os Emirados não responderam imediatamente a um pedido de comentário da AFP. A Anthropic disse não ter conseguido determinar se os testemunhos ou dossiês atingiram seus destinatários pretendidos ou influenciaram decisões políticas.
Contexto do conflito no Sudão
A guerra no Sudão já matou mais de 200 mil pessoas, segundo estimativas humanitárias, e deslocou milhões, no que a ONU descreve como uma das piores crises humanitárias do mundo. Os Emirados têm sido repetidamente acusados, inclusive por especialistas da ONU, de apoiar as RSF e alimentar o conflito, alegações que Abu Dhabi nega. Na semana passada, a missão independente de apuração de fatos da ONU sobre o Sudão afirmou que entidades privadas e intermediários operando de países como Emirados e Colômbia usaram rotas de trânsito no Chade, Líbia e Somália para facilitar a entrega de pessoal, treinamento, armas e logística às RSF.
Tentativas diplomáticas fracassaram enquanto os combates se intensificam em várias frentes no país. O Conselho de Segurança da ONU renovou por mais um mês o embargo de armas sobre Darfur ocidental, enquanto membros continuam a debater uma proposta liderada pelos EUA para ampliar a medida a todo o país.


