Crianças usando IA: 78% na Austrália, aponta a eSafety
A eSafety, agência reguladora de segurança online da Austrália, ouviu quase 2.000 crianças de 10 a 17 anos e encontrou 78% que já usaram um assistente de IA — o ChatGPT à frente. Entre quem usa, 54% recorreram à ferramenta por motivo pessoal ou social: pedir conselho sobre a própria vida, falar de saúde física ou mental, conversar sobre sentimentos ou simplesmente ter com quem falar. Um em cada cinco (20%) relatou ter passado por uma interação potencialmente inadequada ou nociva, e 32% disseram ter compartilhado informação pessoal ou sensível com a ferramenta, incluindo fotos e segredos.
O que foi medido, e sobre quem
O levantamento se chama "Talking to machines: Children's experiences with AI assistants and companions". A amostra é de quase 2.000 crianças australianas de 10 a 17 anos.
Os denominadores mudam ao longo do relatório. O número de 78% vale para todas as crianças ouvidas. Os percentuais de frequência, uso pessoal, dano e compartilhamento de dados valem apenas para o subconjunto que já usou assistente ou companion de IA — não para toda a faixa etária.
Na frequência: 28% usam algumas vezes por semana; 20% usam diariamente ou mais.
De tarefa de casa para conselho
A pesquisa separa dois usos que a indústria costuma tratar como um só. Assistente de IA é a ferramenta feita para responder pergunta, resolver problema e executar tarefa. Companion de IA é o produto desenhado para conversa contínua, amizade e apoio emocional.
Poucas crianças relataram usar companion dedicado — a eSafety cita Character.AI e Anima AI como exemplos. O peso está no outro lado: muitas usam assistente comum, como ChatGPT, Claude e Gemini, do mesmo jeito que usariam um companion. Pedem conselho, discutem assunto pessoal, buscam confirmação.
O uso muda com a idade. Criança menor procura entretenimento, curiosidade e conversa. Adolescente procura conselho sobre situação de vida, saúde física e saúde mental.
O relato de dano é da própria criança
Os 20% que relataram interação potencialmente inadequada ou nociva descrevem quatro tipos: comportamento controlador, conselho prejudicial, bullying e exposição a conteúdo de ódio.
O dado é autorrelatado. A eSafety não afirma ter verificado cada episódio, e o material divulgado não traz o detalhamento por idade, por ferramenta ou por gravidade. O que existe é a proporção de crianças usuárias que disse ter passado por isso.
Os 32% que compartilharam informação pessoal ou sensível estão na mesma condição: é o que a criança declarou ter feito, incluindo enviar fotografia e contar segredo.
A comissária diz que IA não é adulto de confiança
Julie Inman Grant, comissária da eSafety, resumiu a posição da agência em duas frentes.
Para as famílias: a IA tem limite, não é um adulto de confiança e não substitui a interação humana quando a criança precisa de conselho, apoio ou ajuda com o próprio bem-estar. A recomendação prática é conversa aberta e sem julgamento, começando cedo — enquanto a ferramenta ainda é utilitária e antes de virar fonte de apoio.
Para as empresas: a responsabilidade pela segurança do serviço é do fornecedor. Inman Grant pediu salvaguardas embutidas desde o projeto, desestímulo ao compartilhamento desnecessário de dado sensível, redução do risco de interação nociva e consideração pelo estágio de desenvolvimento da criança ao longo do desenho do produto.
Na Austrália já existe regra valendo, com multa
Os códigos e padrões australianos de segurança online alcançam determinados serviços de IA generativa, incluindo chatbot e companion, e exigem salvaguardas contra a criança ser exposta a material nocivo ou gerá-lo.
A obrigação cobre material ilegal — como material sintético de exploração sexual infantil e conteúdo pró-terrorismo — e material com restrição etária: pornografia, automutilação, transtorno alimentar, ideação suicida e violência.
Os códigos de material com restrição etária entraram em vigor em 9 de março de 2026. A eSafety diz estar cobrando das empresas de IA a demonstração de conformidade. Quem não cumprir está sujeito a penalidade civil de até 54,6 milhões — o comunicado escreve o valor com cifrão e não nomeia a moeda.
O que o material não responde
O dossiê não traz o relatório completo, apenas o comunicado da agência. Faltam a data de publicação do estudo, a metodologia de campo, a margem de erro, o recorte por plataforma e o texto integral das perguntas feitas às crianças.
Também não há, no material apurado, qualquer dado brasileiro comparável nem estudo equivalente de outro país. Os números descrevem a Austrália e só ela.
O que muda para quem decide no Brasil
A ferramenta vendida como assistente de produtividade está sendo usada como canal de desabafo por menor de idade, e a eSafety mediu isso em assistente de uso geral, não em app de companion. Quem opera chatbot com público misto no Brasil não pode tratar uso emocional por criança como caso de borda: na única amostra disponível, é mais da metade dos usuários naquela faixa.
A régua australiana já é lei, já tem multa e alcança IA generativa. O comunicado não detalha quais serviços entram no escopo nem se ele atinge empresa sediada fora da Austrália — quem distribui chatbot globalmente precisa checar isso no texto dos códigos, não no comunicado. O que está dito é que a eSafety está cobrando demonstração de conformidade das empresas de IA agora.
O último ponto é de dado. Dos que usaram, 32% declararam ter enviado foto ou informação sensível ao chatbot. Empresa que registra e reprocessa transcrição de conversa precisa saber se esse tipo de conteúdo está no banco. A resposta sai de olhar o armazenamento, não de consultar o jurídico.
--- Apurado em 1 veículo de 1 país: News Hub (Austrália), que distribuiu o comunicado da eSafety Commissioner. Fonte única e de origem oficial: o texto reproduz a posição da própria agência, sem reportagem independente ou contraditório de empresa citada.