A tribo Aeta Hungey, nas Filipinas, vive incerteza absoluta sobre o destino de seu território ancestral. O plano do governo filipino, aliado aos EUA, é construir o Pax Silica, um hub tecnológico de 1.620 hectares em New Clark City, Tarlac, com promessas de US$70 bilhões em investimento e 190 mil empregos. Mas para cerca de mil Aetas, a promessa soa como ameaça: terras ocupadas por gerações podem ser reconfiguradas sem consulta prévia.
Detalhes do projeto Pax Silica
O anúncio oficial veio em abril, quando os EUA confirmaram a adesão das Filipinas à iniciativa Pax Silica, uma jogada estratégica para reduzir a dependência de semicondutores da China. O local escolhido: uma área de 1.620 hectares em New Clark City, província de Tarlac, a meia-hora de Manila, destinada à fabricação de componentes para data centers de inteligência artificial. A BCDA, a autoridade de desenvolvimento do novo centro do país, projeta US$70 bilhões em investimento e 190 mil empregos. Mas o ritmo é lento: nenhum inquilino confirmado. O prazo? Aberto. A promessa, contudo, é ambiciosa demais para ser ignorada.
Preocupações da tribo e do governo
Petronila Munoz, líder tribal da comunidade Aeta Hungey, caminhou pelas terras que sua família habita há gerações, sem saber se continuará a fazê-lo. Em julho, a BCDA enviou uma carta: "could affect your occupied lands". A orientação: deixem a área até dezembro, se reassentando a 16 km de distância. Sem mapa. Sem plano. Sem diálogo.
Ao Free Malaysia Today, Munoz disse: "There’s still no clarity. What will happen to us? That’s our biggest question." A oferta da BCDA? 30 pesos por metro quadrado — o equivalente a US$0,48. Tudo recusado. "Our lives, our livelihood and our culture are tied to this ancestral land. Land is more important. Money runs out.", afirmou.

A BCDA recusou pedidos de transparência. Não liberou o mapa oficial, nem os dados geoespaciais, alegando que as informações estariam retidas até que "a ação oficial seja finalizada ou publicada". Em audiência no Senado, o presidente da BCDA, Joshua Bingcang, foi direto: os Aetas ocupam terras governamentais. Como muitos povos indígenas nas Filipinas, não possuem título de propriedade. E os investidores? Deverão construir seus próprios sistemas de energia e água.
Impacto ambiental e geopolítico
Cinco grupos cívicos alertam: a demanda adicional de água e energia em um país que enfrenta secas e apagões rotacionais é preocupante. Segundo o Departamento de Estado dos EUA, estudos ambientais, de água, energia e impacto comunitário "irão embasar o projeto". Um porta-voz afirmou à AFP que "antes de qualquer desenvolvimento maior, esperamos que assessamentos rigorosos de impacto nos interessados sejam realizados".
Alvin Camba, diretor de pesquisa em uma empresa de IA especializada em cadeias de suprimentos e avaliação de risco, vê o lado oposto. "Manila’s close relationship with the United States could motivate investors to set up shop despite the power concerns", disse à AFP. E mais: relatos indicam que Washington poderia excluir países do Pax Silica caso aderissem a uma iniciativa rival apoiada por Pequim. "This is where the advantage of the Philippines comes in. The Philippines is the least affected by Chinese capital in Southeast Asia", completou Camba.
- Pax Silica: iniciativa liderada pelos EUA para semicondutores e terras raras;
- Mil Aetas afetados: sem titulo de propriedade, oferecimento de 30 pesos/m² recusado;
- Sem transparência: BCDA recusa acesso a mapa oficial e dados geoespaciais;
- 190 mil empregos: projeção do governo, mas sem inquilinos confirmados;
- Money runs out: a terra, dizem os Aetas, não tem preço.


