Maria Ressa, vencedora do Nobel da Paz de 2021 e co‑presidente do painel científico internacional da ONU sobre inteligência artificial, diz que, sem limites imediatos ao avanço da IA, a humanidade corre o risco de perder sua autonomia.
As três ondas da IA segundo Ressa
Ela afirma que a tecnologia já passou por três ondas que chegaram ao grande público.
Na primeira onda, as redes sociais capturaram a atenção dos usuários, aprofundaram a polarização social e contribuíram para o isolamento das pessoas.
Na segunda onda, segundo ela, a tecnologia começou a hackear a biologia humana por meio da intimidade, com chatbots que simulam proximidade afetiva e exploram a necessidade de conexão.
Na terceira e atual onda, a IA agente e multiagente inclui modelos avançados capazes não apenas de imitar comportamentos humanos, mas de agir em nosso lugar, executando tarefas e tomando decisões sem intervenção direta das pessoas.
Ressa advertiu que, se essa evolução continuar sem limites, a capacidade de decisão humana será reduzida e a autonomia coletiva estará em risco.
Propostas de Ressa para conter os riscos
Ela disse que o primeiro passo para promover mudança é tornar as empresas de tecnologia responsáveis pelos danos que causam, citando os acordos judiciais nos EUA que levaram a Meta a pagar até US$ 18 bilhões ao longo da próxima década e a impor limites rigorosos ao uso do Facebook e do Instagram por adolescentes.
Ressa defende a aprovação de leis urgentes que regulamentem o avanço da IA, alegando que pedir regulamentação não é questão de liberdade de expressão, mas de segurança pública.
Ela elogiou as iniciativas da União Europeia e de países como a Austrália, que estabeleceram limites de idade para o uso das redes sociais, mas alertou que tais medidas não resolvem a falha fundamental: as próprias ferramentas desenvolvidas pelas grandes tecnológicas também são viciantes para usuários adultos.

Para enfrentar esse vício, a Nobel da Paz sugeriu que os recursos que geram dependência sejam removidos das plataformas, não apenas para adolescentes, mas para todos os usuários, independentemente da faixa etária.
Ela também propôs que grupos de interesse público criem canais de comunicação descentralizados e de código aberto, como o projeto Rappler Communities, lançado em 2023, que utiliza o protocolo Matrix para conectar redatores e leitores sem depender das grandes empresas de tecnologia.
Durante sua visita a Oslo, onde participou de uma conferência sobre ameaças às democracias, ela disse que o momento é crítico: se não agirmos agora, a situação pode escapar do nosso controle.
Críticas à argumentação contra a regulamentação
Ressa rejeitou a alegação de que regulamentar a IA prejudicaria a competição tecnológica com a China, descrevendo esse argumento como uma boa manobra de relações públicas.
Ela apontou que, na prática, a China impõe mais salvaguardas aos seus cidadãos do que o Vale do Silício oferece ao resto do mundo, citando como exemplo a versão chinesa do TikTok, que inclui restrições de idade para usuários.
Segundo a Nobel da Paz, esse contraste mostra que é possível equilibrar inovação e proteção sem abrir mão da segurança pública.


