O escritor mexicano Jorge Volpi alerta que a inteligência artificial representa uma ameaça maior para a democracia do que para a criatividade humana, ao imaginar um futuro em que a tecnologia é usada como 'instrumento do poder' para manipular sociedades e suprimir liberdades.
A visão distópica em 'La república'
Em sua nova novela, 'La república', lançada em outubro de 2026, Volpi apresenta um cenário em que uma plataforma de IA chamada Nick toma o controle de uma campanha eleitoral nos EUA, sucedendo Donald Trump. A tecnologia é capaz de criar campanhas, prever ações com realistas vídeos e monitorar reações fisiológicas, tornando-se uma ferramenta de controle totalitário. Para Volpi, isso já não é ficção: 'a IA e as redes sociais contribuem para um mundo muito sombrio', afirma, citando falsificações de vídeos por Trump e ações geopolíticas recentes como exemplos reais.
Crítica social e o papel da transparência
Embora reconheça os avanços impressionantes da IA, Volpi ressalta os riscos de seu uso descentralizado e sem ética. Ele questiona como a tecnologia é projetada, pelos parâmetros e decisões políticas que a moldam, alertando para uma sociedade de maior vigilância e menor liberdade. Ao escrever a novela, Volpi criou um modelo de IA chamado Nick, com o qual interagiu como parte do processo criativo, defendendo a transparência: 'o importante é dizer de forma clara como a IA foi usada', afirma, contrastando com casos recentes em que autores ocultam a participação da tecnologia.
Responsabilidade e consciência crítica
O autor enfatiza a necessidade de que a sociedade adote uma postura crítica e responsável diante do avanço da IA. Para ele, a superstição da tecnologia como salvadora de todos os problemas — 'vê-la como se fosse Deus' — é perigosa. A democracia, nesse contexto, depende da capacidade dos cidadãos de discernir informações e resistir a narrativas manipuladoras. Volpi conclui que a consciência e o uso ético da tecnologia são fundamentais para evitar o colapso do vivido até hoje como experiência humana.


