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Alucinação de IA: PwC publicou 4 relatórios com fonte falsa

1 veículos 1 países 1 fonte lida análise OCTOPUS: AI NEWS

Pilha de documentos impressos sobre uma mesa de escritório
Foto: Joachim Schnürle / Pexels

A PwC Middle East publicou quatro relatórios com notas de rodapé falsas, fontes que não sustentam o que afirmam e pelo menos um artigo acadêmico inexistente, o padrão típico de alucinação de IA. O levantamento é da GPTZero, empresa de detecção de texto gerado por IA, foi verificado pelo Financial Times e veio a público em 29 de julho. Os documentos saíram entre 2024 e 2026 e serviam para vender consultoria no Oriente Médio.

Alucinação de IA é a afirmação que o modelo produz com forma de fato e sem lastro: uma citação, um número, uma referência bibliográfica que soam corretos e não existem. No caso da PwC, esse erro saiu assinado por uma das quatro maiores auditorias do mundo.

Quais relatórios da PwC têm citações inventadas

Os quatro documentos cobrem IA agêntica, serviços públicos, cibersegurança e o mercado de veículos elétricos. São peças de thought leadership: material que consultoria publica para atrair contrato, não estudo submetido a revisão.

O caso mais grave é o relatório "Transforming Governance", de 2025, já removido do site da PwC.

O produto que só existe dentro do relatório

O relatório "Transforming Governance" promove uma ferramenta da PwC chamada Citizen Pulse e afirma que os governos da Dinamarca, da Arábia Saudita, dos Estados Unidos e da Austrália já a usam para melhorar serviços públicos. A GPTZero não encontrou prova pública de que o produto exista fora do relatório.

As notas de rodapé dos estudos de caso remetem para páginas iniciais de portais de governo (o dinamarquês borger.dk, a Visão 2030 saudita, o australiano myGov) e para um comunicado da Qualtrics de 2022 que não menciona o Citizen Pulse. Nenhuma delas sustenta a afirmação que acompanha.

O material apurado não traz resposta da PwC sobre a existência do produto.

O estudo que a revista nunca publicou

No relatório sobre cibersegurança em mobilidade elétrica, uma citação atribui ao Journal of Transport & Health um estudo sobre qualidade do ar em Riade. Não há registro do artigo na revista indicada nem com os autores a quem ele é atribuído.

Em outro trecho dos relatórios, a afirmação de que erro humano causa 90% dos acidentes de trânsito aparece três vezes. Na primeira, com nota de rodapé. Na segunda, sem nenhuma. Na terceira, com duas, e cada nota aponta para uma fonte diferente. Paul Esau, pesquisador da GPTZero, disse ao Financial Times que a afirmação em si não é falsa. O padrão entrega a origem: repetir o mesmo dado três vezes em duas páginas não é comportamento de autor humano.

A fonte do caso de sucesso era um adolescente no Medium

O quarto relatório, sobre IA agêntica, continua no site da PwC. Ele apresenta como caso real de sucesso uma iniciativa do JPMorgan e cita como fonte um texto publicado no Medium por um blogueiro adolescente com 280 seguidores.

A iniciativa citada, a automatização da revisão de contratos de crédito comercial, foi noticiada em 2017, cinco anos antes do lançamento do ChatGPT.

Alucinação em segunda mão: os chatbots já repetem

Relatório assinado por auditoria grande é indexado por buscador, citado por imprensa e lido por sistema de IA que depois responde pergunta com base nele. A GPTZero publicou capturas de tela de Perplexity, ChatGPT e Gemini repetindo afirmações falsas de um dos relatórios da PwC.

Edward Tian, presidente-executivo da GPTZero, chamou o efeito de risco de "alucinações em segunda mão" ao comentar um caso anterior, o da KPMG. Alex Cui, cofundador da empresa, diz que afirmações assim ganham um verniz de autoridade que não conquistaram.

O ciclo se fecha sozinho: um modelo inventa a fonte, a marca da consultoria dá crédito ao texto, e outro modelo lê o texto como referência.

É o quarto caso numa Big Four

A GPTZero já tinha investigado episódios parecidos em relatórios da KPMG, da Deloitte e da EY. Com a PwC, as quatro maiores auditorias do mundo já tiveram relatório apontado pela empresa de detecção.

Em maio, a EY retirou um relatório sobre programas de recompensa por fidelidade que aparentava trazer notas de rodapé falsas e alucinações de IA. Em junho, a KPMG retirou um estudo de outubro de 2025 sobre IA agêntica, depois que o UBS, o serviço nacional de saúde britânico, as ferrovias federais suíças e a Transport for London disseram ao Financial Times que as descrições do uso de IA que faziam deles eram falsas ou enganosas.

O que a PwC respondeu

Ao Financial Times, a PwC Middle East afirmou levar a sério o rigor da pesquisa que publica e disse estar atualizando um número limitado de citações de apoio nos relatórios apontados. A empresa não explicou como os erros chegaram aos documentos.

O que muda para quem contrata consultoria no Brasil

Relatório de consultoria entra em decisão de investimento, de fornecedor e de conselho, e chega ao comitê como insumo pronto. O caso da PwC dá três checagens que custam minutos:

Retirar o PDF do ar também não desfaz o estrago. A GPTZero registrou três assistentes de IA repetindo afirmações de um dos relatórios — e é assim que uma citação inventada volta para dentro da empresa, agora sem o nome da consultoria colado nela.

Uma ressalva sobre a apuração: esta história chegou ao IANEWS por um veículo só, o ZAP Notícias, de Portugal, que relata a investigação da GPTZero verificada pelo Financial Times. Nenhum outro veículo apareceu no levantamento.

--- Apurado em 1 veículo de 1 país.